Acordar para o ativismo em rede social

13/10/2017

As redes sociais têm um papel importante na manutenção ou mudança de uma tradição, por isso os ativistas em rede possuem sempre informações para compartilhar na tentativa de defesa animal

Erika Lopes, 38 anos, administradora de empresas e ativista animal. Ela, que iniciou sua transição para o vegetarianismo em 2013, vem sendo uma ciberativista da causa animal auxiliando, assim, pessoas a passarem pelas etapas que ela passou.

Viva Vegan - Qual foi o fator que a impulsionou a se tornar uma ativista em rede?

Erika - Na verdade, as coisas foram tomando forma naturalmente, não foi uma programação. Em 2013, por meio da rede social Facebook começaram a chegar postagens sobre defesa dos animais que se espalharam na rede com a força do ativismo no resgate dos beagles do Instituto Royal. A partir daí, comecei a pensar sobre a existência dos animais. Tive uma crise de consciência e um turbilhão de lembranças de minha relação com os animais me veio à cabeça. Logo percebi que algo estava errado e como tenho uma natureza curiosa, desde sempre, comecei a buscar pelo assunto.

Viva Vegan - Quais seus maiores desafios na causa?

Erika - São vários os desafios, e talvez isso que faça ficar mais forte... Minha primeira vontade em 2014 foi fazer parte do ativismo presencial de rua. Em BH era inexistente. Já estava conhecendo o ativismo pelo mundo, e o ativismo de São Paulo e Rio Grande do Sul ganhando força. Senti muita vontade, mas o ativismo de rua chegou aqui em dezembro de 2016 e então iniciei a participação que ainda não está intensa como eu queria. Acontece que sou amiga e admiradora de ativistas digamos assim "rivais" e isso pode me colocar em situações delicadas. Por último, os desafios ligado às pessoas que estão recebendo a mensagem, ainda presas ao tradicionalismo e dogmas culturais, sejam elas desinstruídas ou diplomadas, ricas ou pobres, independentemente de raça, religião, nação, etc... Muitas se tornam agressivas, outras não, mas apresentam um condicionamento tão profundo do qual eu nunca imaginaria um ser humano se deixar levar mesmo com tantas evidências... São algumas das dificuldades que em nada barram o ativismo continuar, são os contratempos.

Viva Vegan - Os ativistas de outras causas lutam pela sua própria causa, por que você luta pela causa de outros seres?

Erika - Nunca discriminei ninguém pela sua roupa, cor, credo, idade, posição social, sexo, etc... eu acredito superar isso facilmente desde sempre, apesar de ainda sermos contaminados culturalmente... Daí, me veio a questão dos animais. Não me esqueço de uma postagem de um pintinho com uma frase do tipo "por que você pensa que tem o direito de me explorar, sou uma vida", ou algo assim... Aquilo veio como um raio. Me veio à memória a morte de um porco na casa de meus avós aos meus 6 ou 7 anos. Era véspera de Natal. Animal que eu brincava e observava no terreiro junta às galinhas caipiras. Vi a faca entrar em seu coração e o sangue esguichar, ouvi seus gritos e meus familiares segurando o pobre animal. Minha mãe percebeu que havia algo de errado comigo, e eu perguntei por que estavam fazendo aquilo? "É para nós comermos, a carne é necessária para ficarmos fortes." Então recebi minha primeira "injeção anestésica": "Matar um animal é um mal necessário." E durante a vida recebi outros... até acordar. Quando acordei, aos 35 anos, a timidez havia se dissipado um pouco, e um pouco de coragem era possível... 

Os corações ativistas são cheios de emoções, choramos, nos irritamos, o ódio germina quando nos deparamos com as injustiças e a ignorância. É difícil cumprir e equilibrar isto, mas não impossível"   

  Praça da Liberdade em Belo Horizonte em ação contra a vaquejada Foto: Arquivo pessoal 

 Erika Lopes (à esquerda) em movimento em Belo Horizonte pelo fim da vaquejada  Foto: Arquivo pessoal 

O que me fez defender estes animais é simplesmente o fato de que eles não podem se defender sozinhos e,  muitas vezes, eles são obrigados terrivelmente a passar um terrorismo de grandes proporções, do qual eu, com minha percepção, de modo algum posso ficar omissa" 

Viva Vegan - Qual sua maior conquista?

Erika - Espiritualmente falando foi perceber que somos seres espirituais, que esta vida é de aprendizado e passageira, e que a morte não existe. Consegui isso quando busquei a minha espiritualidade por meio do entendimento da natureza e dos seres. Esta busca foi estimulada justamente pela questão existencial dos animais e a relação de nós, seres humanos, com eles, que por fim somos todos manifestação de uma ordem maior suprema. Tudo agora faz sentido. Materialmente falando, eu não sei o que responder... Não sou uma pessoa de muitos bens e sei que a matéria é um detalhe... Mas consegui ao menos me formar em administração, tenho um "título" terreno que posso usar a favor da causa, assim como também para prosseguir na caminhada. Mas me sinto incompleta nesta questão. Quero estudar e buscar mais. O futuro reserva surpresas, eu sei!

Viva Vegan - Uma mensagem para as pessoas que não são infoativistas, mas são engajadas na causa:

Erika - Aos ativistas, proponho que façam tudo com um esforço tremendo de paciência, perseverança e pacificidade. No começo, é difícil, mas a prática se torna fácil com o tempo... É difícil cumprir e equilibrar isto, mas não impossível. Não digo que ser amoroso seja ser permissivo. A verdade vai incomodar muita gente e incitar o ódio no coração delas... Incitar o deboche, a ridicularizarão, o vexame... Não se deixem levar pelo que o mundo diz, mas se deixem levar pelo que floresce em seus corações. Foco no ativismo, foco na promoção de ações ativistas variadas, para expandir a informação. "Os corações ativistas são cheios de emoções, choramos, nos irritamos, o ódio germina quando nos deparamos com as injustiças e a ignorância. Mas, várias vezes, tive a prova de que o ódio alimenta o ódio, e a fórmula para levar o trabalho ativista adiante é pelo amor incondicional. É difícil cumprir e equilibrar isto, mas não impossível," completa. 

Viva Vegan - Uma mensagem para quem não entende sua defesa e não é vegano/vegetariano

Erika - Vou dizer como penso honestamente sobre estas pessoas. Estas pessoas são até mesmo meus amigos, minha família, meus colegas de rotina diária. Estão nas minhas relações diretas, fora do mundo "virtual". Quando nascemos somos levados a acreditar em muitas coisas. Somos moldados por uma estrutura familiar, uma estrutura social, uma tradição, um dogma. Aprendemos muitas coisas por uma espécie de "osmose", sem questionar. "As pessoas devem questionar, e verificar suas respostas, dentro de si. Não seguir nada e a ninguém, nem eu que estou falando isso, me questione e reflita... e não tenham medo de dizer: "Basta, vou seguir por outro caminho...". Será uma aventura e a vida ganha cor! Você não é sua família, você não é a sociedade, você não é o que fizeram de você. A verdade está dentro de você. Busque incessantemente sua autenticidade, sua honestidade interior. Faça a mudança. E falando de outras questões, não ignorar as evidências da vida: o que a exploração dos animais tem causado ao planeta e aos seres humanos? As evidências estão escancaradas e disponíveis... Todos sabemos no fundo, que há algo errado, então se liberte, completa. Somos movidos a acreditar em muitas coisas. Logo nos tornamos adolescentes e um turbilhão de questões nos vêm sobre a vida, e a vida adulta ainda nos faz aprisionados em um mundo sem sentido, basta olhar em volta como o mundo se realiza. Em um mundo justo não haveria necessitados, destruição, dependência e doenças... tanta inteligência, capacidade, tecnologias, recursos e ainda vivemos num mundo cruel com todos.

 Faça a mudança. Não ignorar as evidências da vida: o que a exploração dos animais tem causado ao planeta e aos seres humanos? As evidências estão escancaradas e disponíveis. Todos sabemos, no fundo, que há algo errado, então se liberte"

Erika dá dicas para quem planeja seguir o caminho de webativista. Segundo ela, é preciso, acima de tudo, localizar nossa própria facilidade em alguma área, pois só nos dedicando a algo que nos dê prazer, poderemos avançar em prol de um bem comum. Na rede, os ativistas se apresentam de várias maneiras  e geralmente praticam isso em suas vidas diárias, pela arte, pela medicina, pela advocacia, pelas tarefas domésticas, pela facilidade de cozinhar, de pesquisar, pelas leituras que praticou, abrindo pequenas empresas, nas escolas, na igreja, na família, na esquina, nos bares, nos espaços culturais, pelas práticas governamentais, práticas em comunidades, pela facilidade de se expressar com crianças, os resgates, o trabalho voluntário. Fazer o que nos enriquece como humanos está acima de recompensas materiais e isso é o ponto-chave da questão, porque no ativismo se recebe os benefícios de outra maneira, quando conseguimos tocar a vida do outro de maneira eficiente. 

As pessoas devem questionar, e verificar suas respostas, dentro de si. Não seguir nada e a ninguém, nem eu que estou falando isso.. me questione e reflita... e não tenham medo de dizer: "Basta, vou seguir por outro caminho" 

Se você quer conhecer um pouquinho mais sobre o trabalho de Erika como ativista, acompanhe em sua fanpage do Facebook clicando aqui.