As correntes ativistas

15/10/2017

Entre as duas linhas de raciocínio dos direitos animais, surge o pragmatismo que se coloca na luta do bem animal hoje com as políticas públicas que existem até que se consiga a tão esperada abolição

Dentro do veganismo existem duas vertentes de pensamentos, a bem-estarista, na qual o pensamento principal é: aceitar o uso de animais desde que eles sejam tratados humanitariamente, o que significa que se evite, na medida do possível, seu sofrimento desnecessário. O foco dessa corrente é a manifestação de regulamentação de leis ou políticas públicas que pelo menos reduzam o sofrimento animal provocado pelos seres humanos, nas suas várias áreas. Do outro lado está o abolicionismo, também chamado direitos  animais, que defende que o uso o de animais não é moralmente justificado, portanto, deve ser abolido completamente. 

O contexto atual é desfavorável à libertação animal, portanto, reduzir a miséria deles hoje é algo muito bom e não mau. Uma lei dando bem-estar animal antes do abate não irá aumentar o mau que se faz a eles no abate"


Carlos Naconecy

Foto: Thiago Figueredo

Carlos Naconecy que é filósofo, mestre e doutor em filosofia, foi pesquisador visitante na Universidade de Cambridge, na Inglaterra, e é atualmente coordenador do departamento de ética animal da Sociedade Vegetariana Brasileira (SVB), defende as campanhas de redução, como Segunda sem Carne, em muitos países, campanha com abordagem de cunho pragmático, ou seja, pragmatismo seria o fato de defender a redução do máximo de sofrimento dos animais o mais rápido possível enquanto não houver a possibilidade de libertar todos da escravidão, que é o que se deseja como resultado final. 

Pensamento este, que trabalha entre as duas linhas de pensamento já que o abolicionismo é a meta real. Esse posicionamento abolicionista pragmático é o que move aqueles que fazem um ativismo de alto impacto, como é o caso de algumas entidades, como a SVB e a Mercy for Animals. Essa corrente defende a redução do consumo de carnes (Segunda sem Carne) e aumento do bem-estar animal nas fazendas de criação: campanha da Mercy para criação de galinhas soltas em fazendas, em vez de presas em gaiolas e galpões.   

Se fôssemos um animal preso numa gaiola, iríamos querer mais espaço, mais comida, ser tratado dignamente, mais forragem e, ao chegar ao matadouro, ser abatido da forma mais rápida e menos dolorosa possível. Eu preferiria morrer por inalação de gás carbônico ou argônio do que de marreta na cabeça. O sofrimento deve importar" 

Carlos Naconecy

 

Foto: Arquivo pessoal

Para Ana Paula Pereira, que é abolicionista, o bem-estarismo é ilógico e todos os animais merecem liberdade e não apenas serem bem tratados dentro da indústria de alimentação, testes e entretenimento.

Luto pelo respeito a todos os animais e na luta contra o especismo até que todos os portões estejam abertos, pois não existe 'bem-estar' quando o próximo da fila é você"  

Ana Paula Pereira

Muitos ativistas acreditam que o bem-estarismo acaba sendo simplesmente uma versão do especismo e vai totalmente contra o pensamento do veganismo, como é o caso do empresário Charles Hübner, ativista abolicionista. Segundo ele, os ativistas precisam viver o verdadeiro significado do veganismo e escolher uma linha bem-estarista é continuar se colocando em posição superior aos animais no direito a vida.

Ser vegano e dizer que é bem-estarista é tão incoerente quanto ser 'ovolactovegetariano', consumir ovos e queijos de galinhas e de vacas felizes"

Charles Hübner 


VEDDAS

Para a Organização Vegetarianismo Ético, Defesa dos Direitos Animais (VEDDAS), que trabalha para promover a defesa dos direitos animais e difundir os argumentos favoráveis a uma alimentação e estilo de vida livres da exploração de seres sencientes, o único estilo de vida que contemple a atitude de respeito a outros seres é o abolicionismo. Todas as campanhas do VEDDAS, portanto, vão de encontro com pensamentos como "cage-free" (galpõe de confinamento), "free-range" (criadouros em liberdade), experimentação com anestesia, manejo menos doloroso, etc. Tudo isso, segundo eles ainda é uma criação extensiva. Portanto, bem-estarismo, para eles, é o bem-estar da indústria animal, gerando um novo ramo do agro-negócio para continuar explorando animais.


Em 9 de outubro deste ano o VEDDAS lançou uma crítica ao bem-estarismo que você pode acompanhar abaixo:

  Imagens: Teatro VEDDAS

Segundo George Guimarães, nutricionista especializado em dietas vegetarianas, ativista e Presidente da ONG VEDDAS, ser utilitarista é uma maneira de dizer que não quer a exploração animal mas ainda aceita algum tipo de exploração. Logo, no momento em que você está dizendo que existe uma maneira mais humanitária de praticar aquilo, está perdendo o verdadeiro sentido da causa animal. É uma incoerência. 

Presidente da ONG VEDDAS. Foto: arquivo pessoal 

As campanhas abolicionistas, a longo prazo são as que causam mais efeitos. As campanhas bem-estaristas acabam deixando as pessoas mais confortáveis em sua exploração.

George Guimarães


Opinião

Sabemos que tudo não é tão simples de resolver assim. Se seguimos o princípio que em um protesto pedimos o máximo para adquirir o mínimo, quando pedimos apenas o bem-estar animal corremos o risco de manter tudo como está, já que dificilmente conseguiríamos ter o conhecimento do que ocorre dentro dos grandes criadouros e matadouros. Aliás, só sabemos de uma pequena parte, em que as investigações animais conseguem adentrar.  

Por outro lado, sabemos que grandes conquistas por vezes são construídas em muitos paradigmas quebrados e ultrapassados por meio dos séculos. Para mudar uma cultura leva um certo tempo, nesse caso, a ajuda instantânea aos animais seria de bom grado. 

É um assunto muito delicado no qual não existe o maniqueísmo, não há o bem contra o mal entre o abolicionismo e o abolicionismo pragmático, pois são duas linhas de pensamentos que querem ajudar, criadas por grupos de pessoas que defendem os animais, lutando contra outros dois tipos que entende-se criados pelo capitalismo em cima de vidas: o status quo, que pretende manter tudo como está, e o bem-estarista, que parece mais um meio paliativo de explorar animais enquanto tenta silenciar ativistas.

O abolicionismo pragmático portanto, se coloca entre os dois, possuindo o fator abolicionista como meta principal, mas pensando nos seres que estão sofrendo nesse momento, antes que se consiga sua libertação. 

Acompanhe o podcast com a entrevista de Carlos Naconecy ao Viva Vegan: